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O Pintor Iluminado [Jul. 27th, 2006|07:38 pm]
( para o Rolando de Sa Nogueira)



uma nevoa de luz invade o espaço
um traço
luminoso o alumia
e o voo breve do teu braço
deixa uma restea de esperança
tocando o dia.

o quadro todo incendiado
dança
numa musica de esfers coloridas
e uma ave fugidia espanta
todas as sombras
que a noite ali escondia.

diamantino toque do amor
o voo da memoria em que te sentas
brilha nos meus olhos uma cruz de sonhos
espinho sagrado
iluminando a dor.
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[Jul. 27th, 2006|07:27 pm]
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[Jul. 27th, 2006|07:12 pm]
( para o Edmundo de Bettencourt )


a inspiraçao e a pedra de toque
da magia
que aspirando morre.
na poesia.
e verde essa pedra.
transportada no bico de uma ave. voa.uma seta
atirada contra o sol interior.uma baia a espraiar
uma visao. um campo verde
e os seus espaços exteriores.

uma nuvem em redor de outra nuvem
ou um numero em redor de outro numero.
sem sombra.
iluminado pela luz
de uma praia
onde habitassem duendes com flautas de bizel.


mariahenriques © 1992-2006
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SUSSURRO [Jul. 27th, 2006|07:09 pm]
(para o Antonio Tavares Manaças )



Espera,
escuta esse susurro,
esse momento de silêncio
e então
ouve
o ruído incrivel
dessa borboleta
um trovão de pétalas e
espiritos.
Voar
dançando
com o toque suave
de uma pétala perdida
da flor
e depois das lagrimas
um sorriso.
Após um momento breve
de paz e asas branca



mariahenriques
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mariahenriques © 1992-2006
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O TEU NOME [Jul. 27th, 2006|06:57 pm]
( para o Marcelino Vespeira )




EXISTEM PALAVRAS ANTIGAS
ALICERCES TRAVES MESTRAS
DE UMA CONSTRUÇAO ETERNA
COM QUE IMAGINARAM
AS PIRAMIDES DE UM EGIPTO DEVOTADO
AS FIGURAÇOES.
AOS DEUSES.
ESSAS PALAVRAS CHAMAM COM FOGO
SAO LABAREDAS
QUE ACENDEM. TODAS AS LUZES
ESTRELAS A ILUMINAREM ARVORES QUE EMBORA
CORTADAS SUSTENTAM E DAO SEUS FRUTOS.
ALIMENTO.
VACAS SAGRADAS E O LEITE.
SAO LETRAS LUMINOSAS
DARDOS
QUE ATRAVESSAM O TEMPO SEM IDADE.
O TEU NOME.



mariahenriques © 1992-2006
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O VESPEIRA [Jul. 27th, 2006|06:53 pm]
Uma colagem da autoria de Marcelino Vespeira, datada de 2002, com imagens do então primeiro-ministro demissionário António Guterres, pode ser vista, a partir de hoje, em Lisboa, no âmbito de uma exposição que a Galeria Valbom dedica ao pintor surrealista português.

Intitulada "Afinal quem és", a colagem é um dos últimos trabalhos do artista realizado no ano da sua morte, em Fevereiro de 2002.

A obra apresenta no canto inferior direito uma mulher agrilhoada com uma máscara/rede que lhe cobre a totalidade da cara, elemento de um desenho a tinta-da-china de 1949 e que serviu de base ao cartaz do Festival de Teatro de Almada em 2001.

A exposição na Galeria Valbom inclui cerca de quatro dezenas de pinturas e colagens do artista plástico e inclui trabalhos executados a óleo, acrílico, guache, litografia, colagem e lápis de cera. A maioria da obras expostas foram produzidas entre as décadas de 40 e 80 pelo artista que afirmava que "toda a minha pintura é liberta e libertina".

Na mostra da Galeria Valbom, a colagem é uma das formas mais representadas."Vespeira recorria muito frequentemente a este exercício que praticava de forma menos mecânica e mais racional do que os outros membros do grupo surrealista de que fazia parte", lembram Ana Almeida e Sónia Vespeira de Almeida, no texto do catálogo que acompanha a obra.

Nascido em 1925, em Alcochete, depois de frequentar o curso de Arquitectura da Escola de Belas Artes, tornou-se notado com a sua participação na I Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1946. Apesar de, na altura, juntamente com Fernando de Azevedo e Júlio Pomar, os seus trabalhos estarem mais confinados ao neo-realismo, Vespeira vai enveredar pelo surrealismo, tornando-se num dos pintores mais representativos desta corrente. Em 1971, foi seleccionado com mais 10 pintores para executar uma nova decoração ao café Brasileira, em Lisboa. Actualmente, no célebre café do Chiado, pode ver-se ainda o seu quadro "Forma abstracta". Foi também Vespeira que produziu o logótipo do movimento de Dinamização Cultural do MFA, na altura em que participou na sua dinamização, em 1974. Do seu currículo fazem parte os prémios Hot Club (1956), Columbano (1957), Heitor Cramês (1958) e o da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA) em 2000.


FONTE
Ana Vitória
http://jn.sapo.pt/2006/06/24/cultura/vespeira_exposicao.html
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Arco Iris [Jul. 27th, 2006|06:45 pm]
aro iris dentro do teu sereno olhar
a brilhar com todas as cores.
por dentro do ceu azul espelhado la.
ao longe uma visao.
miragem?
a certeza de se encontrarum oasis
aguas frescas manhas claras
peixes saltitantes .pescava-se tao bem ali.
por dentro desses reflexos colunas elevadas
onde se avistam moluscos-ondas de ternura
pequenas ondas encharcando areias e eu e tu
por dentro do teu olhar.a navegar
a cavalgar.
o pequeno cavalo marinho. a sorrir.


mariahenriques © 1992-2006
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Hora de Ponta. [Jul. 27th, 2006|06:41 pm]
Aqela hora o autocarro estava cheio de gente.
Ele maldizia a pouca sorte de ter uma mulher demasiado distraida e incompetente.
Pois senhores-pensava-que lhe custaria ;aquela mulherzinha insuportavel,por o maldito despertador a tocar a hora certa?
-"O querido ,desculpa,amor ,mas e que foi o telefonema daquela minha amiga ,sabes .Aquela que teve a discussao com a tua tia ,por causa dos ovos que ela lhe comprou anteontem.."-E que lhe importava a ele os ovos ,a tia ou a amiga e a zanga??
Tudo o que pedia era um bocado de sossego quamdo chegava a casa e que o despertador tocasse a tempo de pedir um taxi para evitar o incomodo de um autocarro cheio demais e com demsisdo cheiros menos recomendaveis.
Que horror;mas isto nao se pode!
A seu lado estava uma senhora carregada de embrulhos que,de cada vez que o autocarro saltitava por entre as pedras demasiado desniveladas ,se agarrava a ele com as garras de unhas demasido aguçadas,pintadas em vermelho berrante .Para que querera esta tipa as unhas?Sera que as pinta para chamar a atençao ;ou so para me entontecer com o tom?
-" Bolas ,minha sehora;tenha la cuidado com as maozinhas ,sim;e que essa unhas aleijam,sabe?Agarre-se la aop poste faz favor!
Ela ,olhando-o com indignaçao respondeu altiva.
Sim senhor;vejam la o homenzinho que mal educado!
No meu tempo um homem ( se fosse digno desse nome ) ate pedia para uma senhora lhe dar a atenço de um apelo a sus atençao! A ver la isto ,se sao modos de se falar com uma senhora .Entao voce nao ve que eu estou aqui sem poder agarrar o poste ,longe demais e cheia de embrulhos?
Se voce fosse um homem gentil ,ja se me tinha oferecido para levar alguns !...
Ele olhou para ela .
A raiva e o espanto por ser asim posto em cause diante de toda a quela gente deixava-o sem palavras .
Em redor um brua brua feito de meias palavras e olhares começava a enerva-lo.Ela continuava a olha-lo ,desafiadora.
Ora ve;para a outra vez cale-se senhor malcomportado e aprenda a ajudar uma senhora em apuros!

Ele começou a dar mais atençao aos embrulhos.Papel fino ,laçarotes decorativos ;pareciam prendas caras demais para se transportarem em autocarros.
Sorriu.Se calhar ela tinha em casa um marido parecido com a mulher dele.E com um sorriso ainda mais acentuado olhou para ela dizendo:--
" Pois sim ,minha senhora ,ate e capaz de ter razao,mas sabe isto de manhas num autocarro como este tiraria a paciencia ate a um santo ,que e coisa que eu nem sou.
A senhora ,como esta ;cheia de embrulhos ,porque nao apanhou um taxi?

--Ela ,olhando-o com um misto de espanto -pela subita transformaçao-respendeu-
"-Ora;porque tenho um marido demasiado preguiçoso para por um despertador a trabalhar a tempo e horas!
Ora deixee-me la passar que esta e a minha paragem!

Ele sorriu ainda mais.
-" Nao me diga ;pois olhe tambem saio aqui.
Deixe-me entao ajuda-la ,ja que saimos ambos na meama paragem levo-lhe alguns desss bonitos embrulhos.
Descer estas escadas com isso tudo na mao ,pode ser perigoso...

Embevecida disse-lhe enquanto lhe passava para as maos todos os paotes ,pacotinhos a meias com gestos ternos,sorrindo deliciada.
-" Ora ve;o senhor afinal e um encanto e veja so ;nem custa muito ,pois nao?

Ele retorquiu com um brilho ironico no olhar.
-"Pois nao querida senhora ,nao custa nada,fez muito bem em criticar-me...
Sairam.
O bru brua ficou para tras,alguns piscaram-lhe o olho cumplices,outros abanram a cabeçao(considevam -no um fraco talvez=.
ainda ouviu uma mulher dizer para o acompanhante--" Ves tu;isto e o que tu devias fazer e nao fazes!..."

Desceram.
Ele primeiro.Ela depois.

Foi quando ele começou a correr para o taxi que ela percebeu que ele ia desaparecer com as compras.
Ficou aos gritos no meio da rua.Aquela hora por ali nao se via ninguem.
O autocarro esse ,ia desaparecendo na curva da estrada.
Ficou ali maldizendo o facto de nao ter percebido que aquele homem era afinal um facinora.

Quanto a ele ;chegou mais cedo a casa nesse dia.
A mulher olhou -o surpreendida.
-"Querido;que e isto;tantos embrulhos .Esqueci-me de algum aniversario?
-" Nao querida ;esqueceste-te foi de por o despertador.

Os embrulhos depois de abertos revelaram algumas peças increditaveis.Uma delas era um moderno despertador digital.
Ele nunca mais apanhou um autocarro.
Quanto a mulher dele ,encontraram-na morta uns dias depois .
Tinha sido assassinada.
O corpo havia sido encontrado junto ao caixote de lixo;junto dela estava um velho despertador amolgado.
A policia suspeitara do marido.Diziam alguns vizinhos que eles se davam muito mal.
Mas o caso foi encerrado por falta de provas.
Nao haviam encontrado relaçao entre ele e a arma do crime.
A arma?
Ora bem .Um faca de cozinha. Estava espetada no peito da infeliz que no entanto ,nao se sabe bem porque morrera com um sorriso.
Talvez por causa do anel de diamantes que tinha na mao .
Quanto a ele;o marido,sorria de cada vez que olhava para as peças que aquela manha de autocarro lhe trouxera.
Viuvo e feliz passou a levar um ramo de rosas a campa da mulher.
E de cada vez que la lhe deixava as rosa dizia uma prece em favor da velha senhora de unhas pintadas de vermelho.


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A NATUREZA do AMOR [Jul. 27th, 2006|06:37 pm]
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O CAFE [Jul. 27th, 2006|06:32 pm]
( dedicado ao cafe montecarlo )

( num dia qualquer de 1973 )



o cafe ao fundo
os passos os ruidos
de fundo
o fumo.
as noites e o cafe
com os velhos
a roerem devagar
as raparigas
que passavam
com pernas redondas.

e os amigos
os amigos
a marulharem segredos.


mariahenriques © 1992-2006
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UMA QUESTAO de SOBREVIVENCIA [Jul. 27th, 2006|06:29 pm]
( para o mario henrique-leiria )




As visitas demoravam mais do que ela esperava.
Sentada na salinha exigua via desesperada todas as virtualhas desaparecem rapidamente.
Todas as poupancas dos ultimos meses desvaneciam-se por entre as goelas de gente que nao conhecia.
Que faria quando aquele pesadelo terminasse?
Que iria acontecer-lhe quando finalmente o paizinho fosse a enterrar naquele cemiterio de aldeia perdido no meio do vale?...

Era como um mau sonho tudo aquilo.Pensar que poderia ter ficado em lisboa;naquela casa daquela senhora tao boa.Com um ordenado fixo e tao pouco trabalho ,que lhe teria dado para abandonar tao boas condicoes e vir tratar do paizinho....


Sim ;devia ter enlouquecido sem dar por isso.E agora que faria ali perdida no meio daquela gente ,naquela aldeia pequenina onde nem havia trabalho para os jovens quanto mais para uma mulher de meia idade e para mais feia ,como ela.
Sem dar por isso suspirou longamente.Um dos homens -talvez o marido de alguma das mulheres sentadas a mesa,--aproximou-se com um sorriso compreensivo e disse-lhe:
--" Compreendo o que sente cara senhora,pois tambem eu perdi minha maezinha ha pouco tempo;fica um dor tao grande nao e?
Mas deixe nao se apoquente;esta entre amigos ,vai ver que nao se sentira desamparada na sua dor.Nos tratamos bem dos que nos pertencem.Agora vamos la ,coma qualquer coisa,para se sentir melhor.E estendendo-lhe um sandes do presunto que lhe havia custado os olhos da cara sentou-se ao lado dela com um olhar muito atento.

Aquilo foi o comeco da amizade entre os dois.O tal homem que afinal nao era casado habitava uma pequena mas bonita casita perto da dela .
Tinha sido a maezinha a deixar-lha depois de partir.Deixara a casa e mais algum dinheirito;que ela,a maezinha havia sido muito poupada toda a santa vida.

Entre conversaa na casa dela e dele a amizade foi passando a algo de mais intimo e toda a aldeia olhava com sorrisinhos simpaticos o que tomavam por uma jovem historia de amor.
Que fazia falta ver gente mais nova a recomecar a vida,que a aldeia precisava de sangue novo e que eles faziam um bonito par.

Casaram-se claro.Na igreja perdida no tal vale onde o paizinho e a maezinha habitavam depois de haverem partido.
O dia do casamento trouxera todos a luz do dia e o padre ;um homenzinho redondo de riso aberto nao podia estar mais contente.
Senhores:-dizia a alto e bom som--Que a que tempos que nao tinha a gente o prazer de uma festa de casorio hem?
Tem sido so enterros senhores;uma infelicidade.
E agora vamos a ver se ha festa de baptizado ahaha!...Proximamente; para se comerem uns bolinhos doces..

A festa fora rija,
Bailarico ,comida com fartura que o dinheiro dele podia pagar aquilo tudo e rendas e sedas que a maezinha tinha comprado,bordado e cosido ao longo da sua vida.
Tinham agora todas as razoes para serem felizes.Duas bonitas casas --a do paizinho e a da maezinha-- e como eram casados uma pensaosita para ela que fazia cescer um dinheirito mais gordo.
Tudo fazia prever uma grande felicidade.

Com o passar dos dias ela comecou a estranhar que o seu Almiro--era o nome dele--nunca se sentasse a mesa para as refeicoes.Ao principio ,talvez por causa dos ardores dos primeiros dias nao estranhara.Os horarios la em casa tinham andado meio fora de tempo.
Mas agora achava muito estranho nunca o ver comer uma refeicao .Almocava e jantava sempre so e quando lhe perguntava se ja havia comido ele respondia sempre que sim muito embora toda a comida que lhe cabia ficasse intacta.
Ele no entanto parecia nao perder nem o peso,nem o soriso feliz e ela conformou-se.

Passados uns dias encontrou o padre.
O padre estava preocupado .Durante uns anos tinha havido muito desaparecimento de ovelhas e cabras ali na aldea e toda a gente se atirara a ca?a dos lobos que se haviam visto nas imedia?oes.Toda a gente acreditava serem eles os culpados por todas aqueles desaparecimentos e rapidamente havia sido dada a morte a todos.E parecia ter aquela ca?ada ter dado resultado porque os animais tinham voltado a abundar e sem qualquer cuidaodo de maior para os seus donos.

Mas havia uns dias que mais ovelhas haviam sido encontradas mortas e ninguem sabia explicar a razao.Ja nao havia por ali qualquer animal que pudesse comer os animais;era uma coisa realmente muito estranha-Nao teria ela visto nada que pudesse ajudar?--

Ela respondeu que nao;o que era verdade e foi cada um para o seu caminho.
A noite ela contou a historia ao marido que encolhendo os ombros respondeu que nao era nada com eles.Porque nos nem temos animais --disse.

Os dias foram passando e as historias de animais mortos continuaram.
Ate ao dia em que o padre foi encontado morto no jardim da igreja.Tinha uma forquilha na maos e via-se que havia dado luta antes de morrer.Havia sangue por todo o lado.

A populacao estava aterrorizada.Que coisa seria aquela que ja nem poupava gente?...

Nesse dia ele o marido chegou a casa bem disposto e sorridente;e nem sequer sequer depois de ouvir a terrivel historia ele perdeu o sorriso.
Com os olhos brilhantes olhou-a e disse com carinhoso-
"-Olha la querida ;hoje faz um mes que nos casamos e so tens historias tristes para contar?
Esta bem ,coitado do padre ,morreu e pena ,mas isso acontece a toda a gente,nao e?
Um destes dias tambem nos iremos morrer e nada se pode fazer;mas hoje estamos vivinhos e o que vamos e fazer uma festa so para nos.
Que dizes amorzinho;comprei uns belos bifinhos la na cidade e quem vai fazer o jantar sou eu.
Sim porque estas sempre a queixar-te que nunca comemos juntos .Hoje vamos jantar os dois!

Ela ,embevecida esqueceu tudo.
O jantar estava delicioso e ele uma excelente companhia.
Afinal tinha feito muito bem em tomar conta do paizinho;tinha-lhe dado sorte porque um marido daqueles era melhor que a sorte grande.

Os dias foram passando e um novo padre chegara a aldeia.Muitos dos vizinhos haviam decidido pedir-lhe uma missa extraordinaria em memoria do que havia falecido e assim todos se reuniram na igreja.Todos menos o marido dela que fora a cidade em viagem de negocios.Que tinha que assinar umas coisa que haviam ficado da maezinha e que nao voltaria a tempo da tal missa.

Quando ela regressou a casa ele ainda nao regressara.
Cansada deitou-se e adormeceu quase imediatamente.

Acordou-a um barulho repetido embora suave.
Desceu as escadas ensonada e reparou que o barulho vinha da cave.
Aproximando-se ,viu uma tremula luz.
Ao fundo estava o marido com uma serra na mao.
Quando lhe perguntou o que fazia aquela hora da noite ele sorriu dizendo-

" Querida;estou a preparar os bifes para o almo?o;vai-te deitar que eu nao demoro nada."

Foi muito tempo depois de ter morrido toda a gente da aldea que ela reparou de onde vinham os bifes que ele lhe cozinhava.Mas por essa altura ja o habito de um bom bife em sangue tomara conta dela.
E quando ele lhe disse que vendera as duas casas,nao se importou.
Ele sabia o que fazia e ali ja nao se podia viver.
A aldea estava deserta.

Foi por essa altura que passram a habitar noutro sitio.
Uma aldeia muito maior ,proxima de um aldeamento turistico.

Os bifes ,esses passaram a ser ainda maia abundantes e suculentos.
Quanto aos vizinhos nada fazia prever que desaparecessem .O aldeamento turistico estava sempre muito povoado.Ah ,a proposito;a tal festa de nascimento estava para breve.Sim brevemente haveria sangue novo la na nova aldeia.

E eles podiam esperar viver felizes para sempre.




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POEMA A UMA MAÇA [Jul. 27th, 2006|06:21 pm]
A LUZ CRESCE. DEVAGAR TOCA NA TUA
MAÇA DE ADAO E O POMAR ACENDE-SE TODO EM LARANJA
O QUARTO MOVE-SE
CORTINAS TAMBEM SE ABREM AO SILENCIO QUE VOA
DEBROADO PELA PALAVRA QUE MAL SE OUVE
A LUZ ENROLA O OIRO DA MANHA. SUBITOS PASSAROS VOAM DANÇANDO.

AS CABEÇAS ROLAM BRILHANTES
CARACOIS ENLAÇADOS
PEROLAS ABREM O ESPLENDOR E A LUZ CRESCE.
DEVAGAR A MAÇA DE ADAO REFLECTE O SOL.
O CESTO ESSE BRILHA SOBRE A MESA.DEVAGAR A MANHA
ONDE OS SABORES TECEM SILENCIOS.NA MAÇA.
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[Jul. 27th, 2006|06:15 pm]
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AS COISA PEQUENAS [Jul. 27th, 2006|06:11 pm]
As vezes nao podemos esquecer-nos das coisas pequenas.
Por exemplo ,vai a gente a rua para as compras maiores e esquecemos os fosforos.Chegamos a casa ,queremos fazer o jantar e zas!..
Nada;sem os fosforos nao ha o jantar.
A loja fechada porque ja passa da hora de fecharem as lojas e la temos nos que ir jantar fora.
Raio de esquecimento -o jantar sai-nos por um balurdio!"

-Esta era a conversa da dona Guilhermina de cada vez que se encontravam no elevador.
E de cada vez que tinha que a ouvir e aos seus interminaveis exemplos,chegava a casa ainda mais estressada e enraivecida.
Ja nao lhe chegavam as cenas do patrao e das colegas;o trabalho extra que sempre a acompanhava e ainda tinha que ouvir aquela velha histerica sempre que chegava a casa.

--" So me apetece mata-la juro!-"
E dizendo isto sentia-se sempre melhor.

Este desabafo ,ouvia-o a vizinha do lado.
Solitaria e metedi?a adorava colar o ouvidinho lesto a parede para se deliciar com as novidades da casa ao lado.As vezes com um bocadinho de mais sorte la conseguia ouvir o que acontecia sempre que o namorado da sua vizinha fazia uma visitinha de paixao.Ah isso e que eram dias felizes!..
Os que nao tem, precisam da alegria dos que tem tudo -gostava da dizer.

E verdade que a velha dona Guilhermina era o diabo em pessoa.Adorava a imposi?ao das suas ideas e adorava ver a expressao da vizinhan?a que lhe caia na garra verbal e imparavel sem que pudessem defender-se .Sim porque efectivamente ninguem ali era capaz de a mandar calar.As pessoas tem muito medo da opiniao alheia e para se defenderem dela sao capazes de suportar as maiores prova?oes.
E a verdade e que toda a gente do predio odiava a velha surdamente.Portanto aquele desabafo ouvido na casa ao lado nem era novo ,nem era nada que ela propria nao dissesse de vez em quando.Mas ouvi-lo na boca de alguem que nao se sabia ouvido dava-lhe um prazer excepcional.

E na manha seguinte partilhou o que ouvira com a dona da padaria.A dona da padaria que era metida a escrita nas horas vagas gravava tudo o que ela lhe contava na esperanca de aquilo lhe servisse para a historia que um dia havia de publicar e os dias corriam assim

Por qualquer acidente ou desgra?a quis o destino que a dona Guilhermina falecesse um mes e tal depois .
Toda a gente no predio se juntou na casa da senhora para partilhar o desgosto da familia que sofrera tambem ela o desgaste da companhia e do mesmo terrorismo verbal.Todos menos a tal vizinha do apartamento do lado que se ausentara havia dias sem que niguem soubesse onde estaria.

Quando finalmente ela regressou a casa suspirou com alivio.
Que bom poder subir o elevador sem a historia dos foforos e a cara daquela velha horrorosa a envenenar-lhe o espirito!...
E sorrindo preparou-se para um banho regenerador.
O namorado olhava- deliciado.
-" Boa ;as ferias fizeram-te bem e um prazer voltar a ver-te de novo...

A vizinha do lado encostou ainda mais a orelha a parede.O que ouvia deixara-a tremula e ao mesmo tempo entusiasmada!
Que historia para contar la na padaria.
Afinal aquilo da dona Guilhermina nao tinha sido um acidente...Quem havia de dizer que aqueles dois eram capazes de tal proeza!...


No apartamento do lado o jovem casal come?ara a abrir o cofre.
La dentro,para alem de umas velhas cartas,possivelmente do tempo em que a dona Guilhermina ainda nao falava de fosforos ,estavam centenas de notas de 500.
Uma pequena fortuna acumulava-se no pequeno cofre que ela havia retirado da casa da velha senhora .
Depois de a ver cair com um ataque de cora?ao provocado pelo cha que lhe levara naquela tarde ,um dia antes de ir para ferias.

Olhando o namorado disse-

" Querido ,es mesmo um genio.Aquele veneno que arranjaste nao deixou mesmo nenhum vestigio.
Ela ja foi enterreada e ninguem deu por isso.Podemos finalmente pensar no destino que vamos dar ao dinheiro.
E pensar que afinal a velha era rica!
Se nao tivesse decidido cala-la de vez nunca tinha descoberto esta fortuna!

Na casa ao lado; de ouvido encostado a parede, a vizinha comecava a pensar que um chazinho de cidreira seria o ideal.Foi para a cozinha e de caminho telefonou para a amiga da padaria.
Que tinha uma historia fabulosa sobre a vizinha do lado disse-lhe e que havia de passar por la mais tarde.

Alguns dias depois foi a festa de casamento.
Ela e o namorado olhavam-se sorrindo no meio dos convidados.
Sorrindo ficaram na fotografia.
O dinheiro da dona Guilhermina tinha sido muito bem empregue.Para tras; ficara a vizinha.No chao proximo do corpo um chavena .
De facto aquele veneno que ele arranjara era muito eficaz.
Sorrindo ela disse-lhe:
"-Querido es um genio;ela nem sequer percebeu o que lhe aconteceu.Na verdade foi uma optima ideia alugares aquele apartamento.Assim demos fim as duas e em problemas.Sim porque nao sei como e que aquela idiota pode pensar que no nao sabiamos que ela escutava as nosss conversas,aqueles pareds sao tao finas.
Ele ha gente muito distraida.
E rindo encaminharam-se para a limousine que os iria levar ao aviao.

Dentro da limousine a dona da padaria aguardava a chegada dos dois pombinhos.Na mao o gravador com a historia contada pela sua amiga.

Com um sorriso maquiavelico, o chefe da policia disfar?ado de motorista aguardava tambem....



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MANIA [Jul. 27th, 2006|06:07 pm]
Ele tinha uma mania.
Era a mania da escrita.As vezes levava dias a procura de historias de todo o tipo para depois levar dias a reeinventa-las todas a sua maneira de escritor ignorado mas esperan¿oso.
A mulher dizia-lhe todos os dias que parasse de sonhar.Que escritores ja havia aoa kilos e que o que era preciso era ir ele ao trabalho , a ver se arranjava dinheiro para se pagarem as contas que ela se fartava de trabalhar ;que aquilo assim nao dava.
Ele de facto nao dava ouvidos a alrazoada constante e
sofredora da mulher.
Pelo contrario ,quanto mais ela se queixava mais a ele lhe apetecia afogar a tristeza matrimonial na escrita.
Para nao a ouvir entupiu os ouvidos em algodao.
A vida passou a ser mais silenciosa .
Continuou a procura das historias para reconstruir e dedicou-lhes ainda mais tempo.Para alem disso tinha arranjado um ajudante ,o que muito o entusiasmava
Um dia ,estando ele a escrever a maquina, aconteceu incendiar-se a casa ao lado.
Completamente embrenheado na escrita, nao deu por nada.
E continuou a nao dar por nada muito embora as sirenes dos bombeiros apitassem desenfreadamente.

A mulher testemunhou mais tarde que apesar de ter gritado ate nao mais poder nao tinha conseguido que ele lhe abrisse a porta ;chorosa disse nao compreender o que havia acontecido.

Quanto aos bombeiros disseram ter encontrado o cadaver completamente irreconhecivel ainda agarrado a uma maquina de escrever.
Quanto ao que quer que ele estivesse a escrever ,nada se tinha encontrado.Depreendiam que os papeis se houvessenm queimado no incendio e por isso desaparecido.

Alguns anos mais tarde,estando a viuva a ler um jornal diario viu com grande espanto a fotografia do premio nobel desse ano.Era tal e qual o seu falecido.
Estupefacta viu que o homem presente naquela fotografia ,para alem ser a cara chapada do seu marido,tinha o mesmo sinal na face esquerda.
A vida tinha coisas daquelas,suspirou.O destino,o destino.
Que pena ele ter aquela mania dos romances.Foi a morte dele,pensou.
E levantando-se foi preparar o jantar.

A kilometros de distancia ele,sorrindo pensou que a vida era realmente muito estranha.E pensar que se nao fosse o algodao,nunca teria sido premio nobel.
Gracas ao algodao pelo silencio que lhe permitira deixar de ouvir a mulher e ao vizinho do lado que decidira deixar queimar a casa enquanto o ajudava, escrevendo a maquina o texto que ele ia ditando.
Sim de facto a vida tinha coisas daquelas disse para si proprio acendendo um cigarro.

Foi a morte dele pensou.
E saiu para ir jantar com o editor.

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ISTO DE ESTAR VIVO.... [Jul. 27th, 2006|05:54 pm]
"Isto de estar vivo
Ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o
Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos
estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele,
e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí
a uns 8 dias, talvez.

Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar
onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora,
para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho
dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os
possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo
não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta.

Tenho um subsídio vitalício de 120 contos por mérito cultural. Há
muita gente que tem. Agradeço isso ao Alçada Baptista. E ao Balsemão.
Foi o Balsemão que inventou um decreto, que era o do mérito cultural,
para legalizar estas pensões. O meu subsídio em princípio é vitalício,
é um subsídio pelo passado. Mas com essa maluca das Finanças - por
acaso até é gira, é muito feia mas é gira, é uma mulher a sério, não é
o Peixoto, aliás o Barroso! - nunca se sabe. Mas não, porque se uma
pessoa tem mérito cultural não o perde por causa da Ministra das Finanças.

Eu até estou um bocado resguardado. Enfim, estou bem aqui. Este quarto
é um bom quarto, apetece trabalhar. Eu é que já não estou muito capaz
de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já
não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

As minhas doenças, sei que está tudo mais ou menos controlado. São
coisas antigas, tenho a minha medicação. Moralmente depende muito dos
dias. Sou muito influenciável por qualquer coisa, por qualquer dia de
sol. Se é bom? Ó faxavor! Você nem faz ideia!

Ai fulano de tal está cheio de papel? Quero lá saber! Qualquer dia morre!

O Antigo Regime

Devia ter ido falar com o Vasco Gonçalves! Não o ouviu hoje de manhã a
falar? [numa sessão de comemoração dos 30 anos do 25 de Abril] E ele
tem razão, porque, de facto, o Mário Soares foi um agente terrível da
contra-revolução. O Vasco não lhe perdoa. Eu não sabia que ele ainda
estava vivo. Ele já deve estar muito velhote, coitado.

O fascismo era péssimo. Mas agora, por parte da malta nova, não há a
noção do que era. Nada. Noção nenhuma. E há esses rapazinhos, que são
uns remanescentes - como o Pereira Coutinho, esse tipo que escrevia no
Independente e que agora parece que escreve no Expresso, enfim, gente
de más famílias. A reacção está aí com toda a força. Talvez ainda não
com a força que eles queriam. Nova direita? Extrema direita!

Antigamente não era fácil. Havia um pavor, que era justificado, mas
esse pavor, essa perseguição, insidia mais sobre certas classes.
Certas classes... trabalhadoras. Eu recordo-me que uma noite fui ao
Barreiro, e fiquei lá. Fiquei lá numa pensão manhosa, barata, e de
noite fui atacado, não pela Pide mas por percevejos. Ó faxavor! Seja
como for, havia então patrulhas da guarda republicana a cavalo toda a
noite. Isto foi talvez por volta de 1955 ou 56. Os intelectuais eram
de uma classe média, não havia muitos que fossem da classe operária.

Fui para o liceu em 1936, foi o primeiro ano da Mocidade Portuguesa.
No Camões, eu tinha professores idosos, gente formada pelo regime
republicano. Tal como depois do 25 de Abril houve muita gente que
entrou para as universidades, gente que eles foram buscar - o Piteira
Santos, o Mário Dionísio, etc. -, também na altura eu tive como
professores no Camões tipos de um radicalismo republicano terrível.
Havia um tipo que era professor de matemática. Quando chegava o
contínuo com uma circular da Mocidade Portuguesa para ler, qualquer
coisa desportiva ou assim, ele dizia que era ele que lia, e lia aquilo
com um tom importante. Não deixava o contínuo ler, e lia aquilo com
uma entoação e com um ar extraordinários. Já professores como o Câmara
Reis, que era professor de literatura portuguesa, era um tipo
nitidamente do contra. Ou o João de Brito, que ensinava latim. Esses
escolhiam os textos e davam aulas do contra.

Em casa eu não tive ambiente familiar do contra, não havia ninguém que
me informasse. O meu pai não ligava nenhuma a isso. Mas eu fui abrindo
os olhos, também graças a esses professores que indicavam leituras. Os
professores eram muito importantes. Eu, de professores fascistas só
tive um, e era um fascista um bocadinho moderado. Ensinava latim mas
não sabia latim. E havia os professores padres. Tive um professor que
era um espanto, era o Monsenhor Damasceno Fiadeiro, que tinha sido
confessor da rainha Dona Amélia, era cónego da Sé, e era um tipo
impecável. Não fazia propaganda católica nenhuma. Outro foi o Costa
Nunes, que era professor de canto coral. Esse também era um tipo
engraçado.

A Mocidade Portuguesa era uma coisa extremamente idiota, era uma
imitação, uma coisa inspirada no fascismo italiano. Mas aquilo era
muito reduzido. Quem quisesse as benesses que eles davam - cavalos
para treinar, passeatas no rio - até podia ser uma coisa boa. Para os
outros era uma grande palhaçada. Nós éramos voluntários mas aquilo era
obrigatório. Os liceus não eram mistos, como agora. E mais: não se
podia chegar a um liceu de raparigas. Depois houve uma fase um
bocadinho diferente. O país acordou com o Norton de Matos. Agora há
por aí uns gajos que se gabam muito de prisões e torturas. Que as
houve, claro. Ai o Pacheco Pereira diz que a Pide não torturava? A ele
não!

Escrever

A diferença de gerações não perdoa. Você, por exemplo, você não
escreve para mim. Os autores de hoje têm uma visão do mundo muito
diferente de nós. As viagens, que agora são muito facilitadas,
transformam as pessoas. É outro mundo, este agora.

A primeira coisa que escrevi para um jornal foi em forma de silogismo
e cortaram-me a premissa. Eu fiz aquilo com muito cuidado mas devia
ter feito com mais cuidado ainda. Tu antigamente nunca sabias se
aquilo que tu escrevias seria publicado ou não. Geralmente faziam os
cortes com o lápis azul. Eu conhecia aquela malta toda da comissão de
censura à imprensa, eram coronéis, eram capitães, gente sem qualquer
formação política, acho eu, gente muito pacata embora uns grandes
filhos da puta. Depois desses apareceram uns intelectuaizinhos de
direita, muito mais exigentes e muito mais sabedores. Era gente que
vinha da Católica, uns formados, outros não. O embate foi o
encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era uma coisa
nitidamente do fascismo mas muito minada, muito minada pelo Partido
Comunista. Aquilo foi encerrado por causa de uma filha-da-putice muito
grande de um gajo que já morreu que era o Alexandre Pinheiro Torres.
Era um tipo que como tinha ido para Inglaterra se permitia aqui um
certo à vontade, tinha lá um emprego numa universidade inglesa. Esse
tipo pertenceu a um júri da SPE em que deram o prémio ao Luandino
Vieira, que eles não sabiam que estava no Tarrafal. Quando
investigaram onde estava o autor, descobriram que estava no Tarrafal.
A que mais se dedicava essa Sociedade de Escritores? Essa é boa! Ao de
sempre: a dar uns dinheiros.

Os gajos que viviam da literatura não se atreviam a escrever romances
muito rebarbativos. Porque uma edição ainda custa dinheiro. Havia
gajos que se governavam de escrever: o Alves Redol, o Namora. O Alves
Redol era um escritor profissional, que vivia do que escrevia. Ora,
não ia arriscar o seu modo de vida com um romance muito directo, não
é? Nem o editor publicava. Embora, de vez em quando, dessem uns
prémios a uns tipos do contra. Havia era uns gajos que negavam os
prémios, que se recusavam a receber os prémios. E também havia aqueles
que recebiam prémios e que gostavam de se gabar. O meio era muito
pequeno, e ainda é.

Você acredita naquelas pessoas que agora dizem que não passam sem
escrever? Pois é claro que é um lugar-comum! E é uma aldrabice! Desde
quando é que uma pessoa não vive sem escrever? Essa está muito boa!
Ouça, eu não tenho obra escrita de grande fôlego, o que eu tenho é
sobretudo uma experiência de editor. Acontecia que um gajo me pedia
para publicar qualquer coisa, e eu forjava um livro. São textos
pequenos, eu nunca consegui fazer um romance. Nunca tive um tempo
livre, seguido, sem chatices, sem interrupções. Um romance requer uma
certa estabilidade. Mas não estou muito preocupado com a imortalidade.

O Lobo Antunes é hoje o escritor mais internacional de Portugal. E o
Saramago, embora diferentemente. São autores que já não escrevem para
cá, escrevem para lá, para os leitores dos outros países. Se um tipo
escreve para Portugal, em português, geralmente cai naquilo que é o
bonito estilo, o aprimorado. O Aquilino Ribeiro, por exemplo, tinha um
estilo muitíssimo rebarbativo, com palavrões provincianos, palavras
vernáculas, arcaicas, o que dava àquela prosa um certo encanto. E daí,
talvez por isso, tanto o Saramago como o Lobo Antunes têm de ter uma
prosa muito corriqueira.

Para escrever bem, para estar atento - por desejar está-lo - é preciso
um tipo ler muita coisa.

Sim, o trabalho do Lobo Antunes interessa-me. Tem muitas qualidades.
Tem métier, já escreveu alguns 15 romances, são anos de escrita. Esse
também diz que não pode estar sem escrever, mas esse é verdade. Mas
também é maluqueira. Ele tem muita pancadinha. Há livros do Lobo
Antunes de que eu gostei porque me tocavam. Gostei deles por
bairrismo, porque ele falava de Benfica, e da Avenida Grão Vasco, da
palmeira ao pé dos correios. O Lobo Antunes é um tipo um bocado
sentimental, é um tipo um bocado arrapazado.

A certa altura, eu estava um bocado isolado, porque quem não andasse
muito metido - não era bem ser militante, era ser próximo - com o PCP
não tinha saída. Eu percebi que isolado não ia lá. Então inventei uma
editora, para ter um espaço meu, embora eu não publicasse logo na
Contraponto. Isso foi mais tarde. A Contraponto começou por ser uma
revista. Era uma revista gira. Você nunca a viu? Também só saíram
duas. E aquilo era uma coisa minha, ali era eu que mandava. Em relação
aos autores que editei, isso é muito contingência, porque a gente
edita o que está próximo de nós, o que vem ter connosco. O grande
critério, o político, o estético, era um: os gajos do Estado Novo não
entravam. Quando eu comecei a editar, que foi em 1950, tinham já
aparecido os surrealistas, que era uma linguagem muito mais
revolucionária do que a que era cá usada. Era a linguagem do Paul
Éluard, do Aragon, dessa gente toda de lá fora. O surrealismo em
França teve sempre uma espécie de luta com o PC. Entravam, saíam, eram
expulsos, voltavam a entrar. A determinada altura eles tinham uma
frase que era: o Surrealismo ao serviço da revolução. Mas a revolução
para eles era mais o Trosky, era a revolução permanente.

O que apareceu aqui era uma coisa de cafés. Depois, os cafés da Baixa
passaram a ser bancos, e a actividade deslocou-se para o Saldanha. Mas
os cafés não eram igrejas surrealistas. As pessoas reuniam-se ali como
podiam reunir-se noutro sítio qualquer. Criam-se hábitos, um gajo em
vez de ir a vários cafés, vai sempre ao mesmo. E há outros que fazem o
mesmo. Ora, criou-se uma lenda em volta da cultura dos cafés, mas
aquilo não era nada organizado. Era uma coisa espontânea. O café Gelo,
por exemplo, transformou-se num mito. A malta do Gelo, dizia-se que
era uma malta terrível, uma malta iconoclasta. Era o Cesarini, o
Herberto, o Couto Viana, o Raúl Leal. Defronte do Gelo havia o café
Restauração. Aí iam os tipos mais velhos. E eu, de repente chateava-me
com os mais novos e ia para os velhos.

Eu fazia edições muito pequenas, não dava para mais. Edições que hoje
são raríssimas e muito valorizadas. Por acaso isso dá-me um certo
gozo. Eu vendia muitos livros a gajos que nunca tinham comprado um
livro na vida. Eu cheguei a vender um livro a um tipo que tinha um
talho, e esse gajo guardou o livro e agora fez um negócio maluco. Não
lia? Pois claro que o gajo nunca tinha lido nada na vida!

Despojos de gente

Lares, com este é o terceiro. São casas onde não se compra um jornal.
E agora, como há a televisão, a malta acha que anda toda muito
informada. O convívio com as pessoas que estão aqui? Não há, não
existe. Uma conversa? Deixe-me rir! Não abrem a boca! Isto já não são
pessoas. Isto são restos de pessoas. Havia aqui um tipo a quem eu
salvei a vida - enfim, salvei a vida por mais uns tempos. Eu de noite
como não durmo, ouvi o homem chamar. E eu fui lá e ele pediu-me para
chamar alguém. Eu toquei na campainha e ele foi logo para o Hospital
de S. José. Estava muito aflito. Bom, depois de estar no hospital o
tipo voltou e foi com ele que aprendi a jogar à bisca dos 9. Mas isso
é um caso único! Em Palmela, na altura em que eu lá estava, havia uma
gente muito viva. Dançavam, namoravam e havia um grupinho de jogo.

Como diz? Que estou deslocado aqui? O que eu estou é enterrado! Ouça,
eu já não saio daqui. Eu já vi que os defeitos destes gajos dos lares
não são defeitos: são atributos. O que se passa aqui não é pior do que
aquilo que se passa em Palmela ou no Montijo. Mas ouça: você não venha
para aqui nunca! Aliás, não vá para lado nenhum. Aí é que está o
problema: perdeu-se o hábito das casas de família. Pai, mãe, filhos,
avós, tias velhas. As casas agora não permitem isso. Eu nasci numa
casa com 11 divisões, e cabia lá muita gente. Agora num T1, isso não
dá nem para um casal e dois filhos.

Este abandono não é bem abandono. É antes o chamado descartável. Hoje
em dia, um casal normal que tem dois filhos, vai-se concentrar nesses
dois filhos. Nem ele nem ela querem lá a velhada. E mesmo que
quisessem, onde é que eles a punham? É claro que antigamente nem toda
a gente tinha casarões. Como é que faziam os mais pobres? Viviam
juntos! Esta coisa dos lares, isto é uma coisa americana. Por que é
que chamam lar? É um eufemismo! O lar não é substituível.

Ouça, faz mais falta os jornais e a leitura do que a visita. Mas a
visita é sempre uma alegria. Só que depois uma pessoa fica muito
cansada. Eles dizem que eu sou a pessoa que tem mais visitas e mais
correio. Quando cheguei a esta casa, assim que comia ia para a rua. Ia
para o jardim, ou andava a passear nos carros da Carris. Não, não
sinto falta. Ouça: uma pessoa tem de que mentalizar. É outra coisa, é
outra vida. A cada dia que passa vejo menos. Qualquer dia fico cego de
todo. Acho que primeiro se vêem umas sombras.

Se há uma diferença entre as mulheres e os homens, aqui dentro? Não!
Está tudo badalhoco! Está tudo taralhoco! Há aqui uma criatura, uma
mulher alta, grande, que fazia o corredor de andarilho durante toda a
manhã. Ela deve ter tido uma congestão, porque há uma perna que não
mexe, há uma perna que puxa a outra. Eu ouvia o arrastar do andarilho,
para lá e depois para cá. E depois ela aparecia e desaparecia. E
depois aparecia outra vez. Eu lembro-me de quando ela foi ao casamento
de uma neta, toda aprimorada. E ela agora passa o tempo deitada na
cama, de lado. Isto dos lares é terrível porque uma pessoa não só está
a morrer aos bocadinhos como está a ver morrer aos bocadinhos. Quem
tenha um bocadinho de atenção começa a notar que há muitos que se vão
afastando, cada vez mais, que se vão ausentando.

Eu estive para ir para um lar que tinha velhos e crianças também.
Talvez fosse um lar com uma escola anexa, não sei bem. Isso é uma
coisa que dá muita vitalidade. Aqui, por exemplo, são proibidos os
animais. Mas os animais dão muita alegria aos velhos. Eu já cheguei a
ter aqui no quarto 4 pombos! E tive aqui uma espécie de pardalito que
era um bichinho diferente, que vinha aqui todas as manhãs. Eu já
desisti da vida muitas vezes, mas o instinto de conservação é muito
forte. Havia uma coisa que me animava que era o comer. Mas agora nem o
comer. Agora há aí umas sopas reforçadas, umas sopas óptimas. Mas
houve um estupor qualquer que se queixou que a sopa tinha sal a mais,
e agora não põem sal na sopa. Bem, eu tenho aí sal. Mas é diferente.
Esse gajo das cartas, o da bisca dos 9, era um gajo que tinha mau
perder. E eu, que me estou marimbando se perco ou se ganho, acabei por
conhecer melhor o gajo. E eu já não podia ver o gajo. Depois foi-se
embora, parece que voltou para casa, mas vem cá todos os dias, não tem
capacidade para estar sozinho.

As entradas e as saídas aqui? Nem se dá por isso! As saídas é para o
cemitério. Não nos dizem, mas sabe-se logo. Nestas casas, o facto de
uma pessoa morrer, requer um certo recato. É claro que as pessoas não
ficam indiferentes, porque quando vêem partir alguém pensam que
qualquer dia vão elas. Houve aqui alguém que se atirou de uma janela
abaixo, e eu só soube muitos dias depois. Já vi morrer muita gente. E
quando entram também não se dá por isso. Apresentar os recém-chegados?
Não, isso não se faz! Há uns quartos grandes onde há 4 ou 5 camas.
Quando morre alguém os outros não reparam. Foi a pessoa e foi a cama,
e ninguém repara. Arrumam o quarto de maneira a não reparar. Isto é
gente que já está ausente. Há um tipo que anda por aí nos quartos das
senhoras. Ele senta-se, como se estivesse a ver televisão, mas não
está a ver nada, está a dormir. É aquilo a que se chama a modorra. E
eu, às vezes estou aqui e de repente estou a dormir. Nada aqui excita
a atenção.

A estopa ao pé do lume

Politicamente, economicamente, podemos estar numa má altura. Mas há
coisas que não voltam para trás. Uma coisa que eu tenho reparado é
numas figuras de raparigas que nós nesse tempo não apanhávamos. Há
agora um novo tipo de mulher. Mulheres formadas, algumas com dois
cursos, com empregos, com uma ginástica de se desenrascarem
formidável. São mulheres muito diferentes das do meu tempo. Sabe o que
é? Começam a funcionar muito mais cedo. Não haja dúvida nenhuma que a
repressão aí era tenebrosa. Fui parar à cadeia 5 vezes por causa
disso. Não era bem puritanismo. Era estupidez e a Igreja católica.
Eram valores como a virgindade, o pudor... Havia muita hipocrisia. Mas
a gente também se governava. Eu fui parar à cadeia porque arrisquei.
Se eram virgens? Bem, eu não fui lá ver se elas eram virgens.

Quando uma rapariga é menstruada, a Natureza já lhe dá o estatuto de
mulher. Pode ser mãe! Já não é uma miúda, enquanto que um puto de 14
anos pode ser um pateta alegre. Não viveu nada, uma mulher com 14
anos? Essa é boa! Não viveu mas começa a viver! Com a minha primeira
mulher, ainda uma menina, eu ia para o pinhal ler e ela fazia uma
gracinha que era mandar uma pedrada no livro. Era um assédio sexual!
Era a estopa ao pé do lume. Eu disse isso numa entrevista que dei.
Sabe o que é que saiu? A sopa ao pé do lume! Agora publicaram isso em
livro e já foi emendado. Estas entrevistas gravadas é uma chatice. Às
vezes não é nada inteligível. E depois é também uma questão de
linguagem. No meu tempo já não havia estopa, isso era uma frase que o
meu pai usava. É um português que não é arcaico mas é antigo. Uma
rapariga de 30 anos não entende essa linguagem. Ora, a estopa é uma
coisa inflamável.

Bom. A vítima, a infeliz donzela, essa nunca se denunciava.
Antigamente fazia-se uma coisa que era 'a prova da coelha'.
Injectava-se numa coelha urina da presumível grávida e a coelha tinha
uma alteração de temperatura ou coisa que o valha. Antigamente,
rapazes e raparigas entendiam-se como se entendem hoje. Não tinham era
o à vontade que há hoje. Você não faz ideia do pavor que era namorar!
Vocês hoje não têm a mínima noção disso. Vocês vivem no paraíso! Mas a
grande revolução foi a pílula. Não estou a falar por mim que eu nunca
tomei essa porcaria. Detesto isso. Eu sou contra o aborto.

Tudo se cria

Eu não acho bem que se prendam as pessoas, mas sou contra o aborto. Eu
sou a favor da Natureza. A Natureza não é a favor do aborto. Há
pessoas que não podem criar os filhos? Isso é conversa! Sim, tudo se
cria. Tem em mim o exemplo. Eu, sem dinheiro nenhum, sem emprego
nenhum, tenho 8 filhos. Isso é conversa, isso é uma cobardia que esses
gajos instigam. Não, não misture as coisas. O referendo não é a favor
do aborto. Eu desisti um bocadinho da política porque fui lá de
propósito para votar a favor da despenalização do aborto e foi o que
se viu. Com certeza que sou a favor da despenalização. Andarem aí a
prender as raparigas, isso é um disparate.

O Estado é que não quer dar o apoio à mãe solteira. Haviam de ter
apoio, tudo de borla, para elas e para os filhos. Filhos indesejados?
Vamos lá a ver: uma rapariga que vai para a cama com um rapaz sabe que
se arrisca.

Há aqui no lar 5 ou 6 raparigas que têm vinte e poucos anos, já com
dois três filhos. São miúdas? São umas mulheraças! E desenrascam-se, é
o que eu sei. Como é que os meus filhos cresceram? Ora essa! Se vocês
os visse, crescidos como estão! É preciso coragem. Minha e deles. As
mães? As mães não foram abandonadas. Os filhos estão todos vivos,
menos os que as mães mataram. Enquanto eu podia, andaram no Charles
Lepierre, que era muito caro. Eu na altura era funcionário público.
Não fui sempre desempregado. Depois saíram, porque eu deixei de pagar
e eles tiveram que sair. Eu tive muita sorte, porque de facto não era
fácil, um tipo como eu, desde 58 (que foi quando pedi a demissão) sem
emprego certo. Quando me vêem dizer: estou desempregado. Eu dou logo
os parabéns! Há a mania do emprego sabe? E depois metem-se em despesas
e ficam agarrados. Eu nunca pensei em comprar carro, casa, essas
coisas. E esta coisa das mulheres serem muito influentes é muito mau
para o marido, porque exigem dos maridos um certo trem de vida.
Antigamente as mulheres sujeitavam-se um bocadinho às condições que
havia. E se não se sujeitavam, eu despachava-as! Agora estes gajos,
querem assumir certas coisas perante as mulheres, e depois é a vaidade
também, estes gajos de agora são uns vaidosos.

Porrada por encomenda não

Sim, às vezes sou um bocado duro, mas a dureza não é só franqueza, é
uma exigência própria. Mas isso hoje não interessa a ninguém, hoje
tudo se resume ao deve e ao haver. O que vejo por exemplo nos meus
filhos, é uma retracção. Eles não se abrem. Há uma predisposição para
a pessoa gostar de si própria e, em consequência disso, fecha-se, cria
uma barreira. Se você ler certos textos meus vai encontrar coisas que
não são fáceis de serem ditas. Tenho em mim um gosto de estar atento.
Estar atento é vermo-nos, a nós próprios como aos outros, da maneira
certa. O que é muito difícil.

As pessoas mudam de uma maneira total. Às vezes é até muito rápido,
não é ao longo da vida. Ninguém muda? Bem, talvez. Eu acho é que
ninguém, quase ninguém, se revela. Houve uma altura em que eu tinha a
noção de que conhecia tudo. E hoje tenho a noção contrária. A pessoa
mais boçal, mais primária, de repente tem gavetas fechadas. É muito
difícil conhecer os outros. Há um texto meu que é o Teodolito, que é o
homem e a sua circunstância. A pessoa que conhece a sua circunstância
- se você estivesse aqui neste sítio onde eu estou, rodeada de
canibais, você ficava de repente muito atenta, por uma questão de
autodefesa - fica atenta. Não, não é preciso conversar muito para
conhecer o outro. Há aqui uma coisa que é a gorjeta, que é um caso
sério. Porque não se sabe a quem se há-de dar, se se há-de dar igual a
todos, é uma chatice. Depois descobri que elas gostam é do "pourboir"
discreto. Ai nos cabeleireiros também é assim? Ai não sabia. Eu sou um
tipo atento. É uma maneira de estar na vida. Quando comecei a publicar
no Público alguém anunciou: o escritor e polemista Luiz Pacheco.
Queriam que eu fosse para o jornal dar porrada. E eu, só para chatear,
para contrariar, estive quase um ano a retrair as unhas. Porrada por
encomenda não."


Pública dia 28 de Março
http://luizpacheco.no.sapo.pt/default.htm
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[Jul. 27th, 2006|05:32 pm]
11 Setembro 2005

O Luiz Pacheco fez oitenta anos ha uns tempos e tal.
Meu Deus;como o tempo passa e a frase trivial que apetece dizer.

Vi o programa de aniversario na televisao que isto das topo geografias
limitam um bocado.
O que me apetecera seria talvez a visita (como no tempo do
Barro).Arrancar-lhe umas palavritas ,trazer-lhe outras;algumas
memorias com muita ironia la dentro,algumas piscadelas de olho
cumplices e bem ou mal dispostas.
Mas vi logo pelo filme que ao Pacheco nao lhe apetecia a fala.Ou
apetecia mas nao havia tempo de acçao.


O Luiz,goste-se dele ou nao,tem uma virtude que faz dele o que
e;um ser com um toque diamantino de ser livre e espacial que traz as
coisas em que toca a tal diferença e o respeito para com a obra alheia.


Vivemos alguma coisita em conjunto.
Digo Conjunto porque gosto do som da palavra e porque tambem a idea de
conjunto define muito do que ele foi --e--como editor e autor.
Com o Pacheco nada se esquece ;ele traz-nos atraves da sua escrita a
memoria de um tempo que muitos gostariam que nao houvesse existido
,mas que existiu e podemos tambem dizer ainda existe e nao so na
memoria de alguns.
Em conjunto dizia eu; fizemos alguma coisita juntos.
Rimos muito e bem.
Tao bom ,porque a gargalhada ainda e a melhor maneira de se manter a
gente na vertical e afaga e apaga muitas desilusoes.

Amamos muito.Os amigos que se atravessaram no caminho e nos trouxeram
tambem muito de riso e das ilusoes.
Alguns ja ficaram pelo caminho ;guarde-se deles a memoria e o apreço
pelo que nos deram.

O nosso Pacheco--quer se goste dele ou nao--e um tipo de amores.E
apesar das manapulas voadoras com que desanca aquilo que nos outros
lhe parece mal,tem dentro do olhar aqueles lampejos ternurentos que so
quem lhos conhece adivinha.

Fez anos o Luiz e eu fiquei a ver.
Os amigos ,a evocaçao do passado;algumas memorias onde o burlesco
azedo se misturava ao humor de uma vida recheada de tristezas e
alegrias onde a aventura foi sempre predominante.Uns fizeram-me rir
outros fizeram-me sorrir; alguns nem por isso.

O filme era bem bom.
Gostei de ver o Paulo.
Inteligente e digno.Capaz de dizer o que lhe ia na alma com uma
limpidez e uma pureza de estilo que me impressionaram.
Filho de peixe....


E gostei de me lembrar.No meio daquela luz a preto e branco quase que
vi todos os fantasmas luminosos de sorriso ironico e olhar piscante de
cumplicidades.
A Natalia ,o Pignatelli, o Dacio,o Forte e todos os que mudaram de sitios.
Ah as memorias ;que bela maneira de se ir a gente despedindo.

Gostei daquela festa de anos televisiva.
Gostei de ver o Saramago ;o nosso para sempre presidente Soares;gostei
das historias,das ironias flutuantes;dos toques e dos arremeços.
Se o Pacheco teria sido homo? Se se teria dado a aventuras
maritimoeroticoeroico nocturnas?..

Sei la!

Conheço o Pacheco vai para mais de quarenta anos.Homens nao dei por
isso;algumas mulheres sim vi que andavam com ele e nem sempre
rapariguinhas simples ou iletradas a quem ele tera ou nao ensinado as
primeiras letras de um alfabeto qualquer.

Que tem a vidinha privada dos artistas que ver com a sua obra?

Pois e;a velha pergunta de sempre sobre o ovo e a galinha. Para mim o
que contara sempre e a obra.
O que resulta da misturangada feliz ou infeliz a que na verdade se
resume a nossa vida.
Aquilo que fomos capazes de fazer com tudo isso .O que fomos ou nao
capazes de criar.

Quanto ao Pacheco ( que começou por dizer que havia sido editor e que
agora e um fantasma) devo dizer dele o seguinte:
Tem ainda dentro do olhar e para la das lentes grossas onde sempre
escondeu o que ele diz ser a miopia, o mesmo lampejo de ternura
divertida de alguem que conhece da vidinha todos os segredos.

Se e um fantasmea ,nao sei.
Sei que esta vivo como nunca e isso e que e bom.
Parabens ao Luiz Pacheco entao.
Por uma vida vivida com a coragem de se ser unico e original.

Quer se goste dele ou nao.

11 setembro 05
MariaHebriques

http://www.geocities.com/cipreste2003/BR.html

ESTA CARTA ESTEVE PUBLICADA NO MEU BLOG --"O SILENCIO A VOLTA DA MEMORIA" QUE SEM NENHUMA RAZAO FOI DELETADO PELOS SERVIÇOS ONDE ESTEVE ALOJADO PARADE MAIS DE 3 ANOS. VOLTA A SER PUBLICADA AQUI
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COMUNIDADE [Jul. 27th, 2006|05:06 pm]
Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.



É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

(...)

Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!

Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.

Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços.

As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.

Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.

Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)

(...)


por Luiz Pacheco
in "Comunidade", Contraponto, 1964
http://bibliomanias.no.sapo.pt/comunidade.htm
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